Em Tempos que já lá vão, quando Almofala era terra de mouros, pois se até o seu nome, em língua árabe quer dizer “acampamento”, vivia uma jovem de nome Salúquia. A sua beleza era admirada por quem tinha a dita de a ver, obedecendo-lhe a todos os caprichos.

A vida decorria normalmente no pacato acampamento quando a investida dos guerreiros cristãos veio pôr toda a gente em sobressalto. Para melhor defesa da região, foi nomeado um novo governador para Almofala. Rodeado por um numeroso grupo de cavaleiros, mostrava-se altivo, o que desagradou à população. Com autoridade, mandou reunir toda a gente no meio da aldeia e disse-lhes com arrogância:

– Sou o novo governador desta zona, por ordem de Alá. Os cristãos invadiram a nossa terra e eu exijo que me obedeçam. Não podemos mostrar desunião perante o inimigo. Aquele que me desobedecer será severamente castigado.

Parecia que as suas ordens tinham sido bem compreendidas por todos, quando uma voz de mulher se elevou do meio do povo, que se mantinha calado e receoso:

– Dizei-me, senhor eu também sou obrigada a obedecer às vossas ordens?

O governador olhou espantado para a atrevida, mas bela jovem, perguntando-lhe quem era ela, afinal para ser tratada de maneira diferente dos outros.

– Sou Salúquia, a quem aqui todos obedecem. – Respondeu a altiva rapariga.

Ignorando o que se passava, o governador perguntou a um mouro que estava perto, porque razão lhe obedeciam.

– É muito bela, senhor – informou o inquirido – o seu olhar tem um poder que atrai e todos lhe obedecem porque pretendem as suas boas graças. Zangado, o governador virou-se para Salúquia e disse-lhe em tom irado:- O teu poder acabou e agora quem manda aqui sou eu. Se não cumprires as minhas ordens, como os outros, receberás um castigo exemplar.

A jovem não gostou da reprimenda e prometeu amaldiçoar o governador – se ele se atrevesse a castigá-la. O novo chefe ficou irado. Não podia admitir uma desconsideração e desobediência à frente de toda a gente. Perderia a sua autoridade. Então, virando-se para os guardas, ordenou-lhes que a prendessem.

– Que ninguém me toque, senão amaldiçoarei o governador – ameaçou a endiabrada Salúquia.

Perante a hesitação dos guardas e do povo, que não se atreviam a tocar na rapariga, o governador dirigiu-se para ela e agarrou-a com violência. Depois, virando-se para um soldado, mandou vergastá-la seis vezes, para exemplo dos restantes.

Para espanto daqueles que se tinham habituado a aceitar e a acatar os caprichos da jovem, o soldado pegou num chicote e executou a ordem do chefe. Gemendo, a rapariga aguentou até ao fim o impiedoso castigo. De dentes cerrados, olhou fixamente para o governador. Na praça reinava um profundo silêncio. Foi então que o novo chefe falou:

– Pois bem, Salúquia, a tua beleza não me impressiona e agora já ficam a saber quem manda aqui. Este foi um pequeno exemplo, de futuro serei mais severo para quem se atrever a desobedecer-me. Podem ir-se embora.

A população retirou-se para suas casas, comentando, com apreensão, a atitude do governador. Não era para brincadeiras e teriam que ter muito cuidado com ele. Em pouco tempo o local ficou deserto, apenas Salúquia ficara no mesmo lugar. Ao retirar-se o governador reparou na teimosa rapariga, mas não lhe ligou, apreensivo que estava com a invasão dos cristãos, e as lutas que não tardariam.

A partir desse dia, Salúquia não foi mais a mesma rapariga, alegre e atrevida. O desejo de vingança queimava-lhe o coração, não a deixando sossegar. De noite, mal conseguia adormecer, atormentada entre o desejo de matar o homem que a humilhara e o de esquecer esse homem cruel. Esta intenção não seria fácil de realizar, pois até nos poucos momentos em que conseguia adormecer, sonhava com o rosto do belo mouro, a mandar castigá-la, sem piedade.

Tanto sofreu até que, uma madrugada, quando forte ventania assolou a aldeia, abriu uma janela do quarto. Os cabelos desgrenhados pelo vento e o sorriso maldoso que lhe aflorou no rosto davam-lhe um ar terrível, apesar da sua extrema beleza. Então, num grito que se sobrepôs ao rugido do vento, bradou:

– Eu te amaldiço-o, homem cruel, que não desejas a minha beleza. A partir de agora não terás um momento de descanso, nem um dia de saúde, nem saberás o que é a felicidade. Ò vento leva a minha maldição!

Aos primeiros alvores da manhã, um amigo do governador ficou alarmado com os gemidos que sentia no quarto do chefe. Dirigindo-se para lá, viu-o torcer-se com dores muito fortes. Alarmado, correu a chamar um médico. Este, sentindo-se incapaz de descobrir o mal que atormentava o governador, chamou outros colegas das terras mais próximas, mas nenhum conseguiu aliviar o doente daquele tormento.

– Não sei o que tenho – disse ele para o seu melhor amigo – parece que todo o corpo se me queima por dentro. Preciso curar-me, pois os cristãos avançam cada vez mais, e neste estado não posso cumprir o meu dever para com Alá e o emir. Dá-me um pouco de água, pois só ela me aliviará um pouco.

Os soldados, sem a forte orientação do chefe, que continuava prostrado no leito por aquela misteriosa doença, foram incapazes de enfrentarem as investidas dos cristãos que, não tardaram a chegar perto de Almofala. A população, receosa, não se atrevia a sair de casa, mas Salúquia vagueava pelos campos, chorando e falando sozinha, escapando com mestria às patrulhas inimigas que andavam por perto.

Numa dessas ocasiões, ficou sobressaltada ao ouvir uns gemidos que vinham detrás duns arbustos. Aproximando-se cautelosamente, ficou admirada ao ver um homem, de meia-idade, com uma perna presa numa armadilha que os mouros costumavam colocar perto das povoações, para não serem surpreendidos durante a noite.

– Por favor salva-me – pediu o homem ao ver a jovem – tenho a perna quase despedaçada. Ajuda-me a livrar-me desta armadilha, para poder ir-me embora.

– Se pensas que isso é sofrer, deverias ver o nosso governador. Para além disso, sou tua inimiga, como queres que te ajude? – Respondeu Salúquia.

– Que tem o teu chefe? Foi ferido nalguma batalha?

– Não! Sofre de uma maldição lançada por uma mulher. Castigou-a com maldade, mas foi justo.

Vou-me embora, pois não posso ajudar-te.

– Por favor, socorre-me, ele nada saberá – suplicou o cristão.

– E se ele souber? – O que irá pensar de mim por ter ajudado um inimigo?

– Não te preocupes, mas se ele soubesse, pensaria que és boa e caritativa, pois ajudas-te um ser humano, não se importando se era amigo ou inimigo.

– Não sabes o que dizes. Se ele soubesse, matava-me, pois para além deste motivo, outro haveria que……

O ferido, notando a preocupação e nervosismo da bela moura, para além do ar abatido e a emoção que demonstrava quando falava do governador, retorquiu-lhe:

– Não sei o que te preocupa, nem o que se passou entre ti e o governador, mas sei que o amas!

Ao ouvir as palavras, Salúquia deixou escapar um grito de surpresa e, levantando-se, preparava-se para fugir. Então o ferido disse-lhe em voz alta e em tom suplicante:

– Não fujas Salúquia, pois estou a sofrer muito. Se me ajudares, eu te ajudarei também.

– Quem te disse o meu nome? – Perguntou a jovem com espanto.

– Foi o meu Deus que me contou tudo o que se passou entre ti e o governador. Amaldiçoaste-o, apesar de o amares. E ele também nunca mais te esqueceu, pois que o seu amor por ti não é menor que o que sentes por ele.

Um forte soluço se apoderou da moura, que levou as mãos ao rosto. O choro prolongou-se por alguns instantes mas, depois erguendo a cara, onde sobressaíam belos e expressivos olhos negros, emoldurada por longos cabelos do mesmo tom, respondeu:

– Não percebo uma coisa, cavaleiro. Se o teu Deus te contou tudo isso, porque não te ajuda a livrares-te dessa armadilha?

– Porque Ele mandou-me para te ajudar. Se me salvares, cometerás uma boa acção que será recompensada com a cura do governador. Ajuda-me que não te arrependerás.

Salúquia não demorou muito tempo a pensar, ajudando o cavaleiro a libertar-se da terrível armadilha que lhe provocara profundos ferimentos na perna, sangrando abundantemente.

– Que Deus te recompense, minha filha. Agora ajuda-me e leva-me até àquela nascente.

A jovem passando um braço pela cinta do cristão, ajudou-o a caminhar até à nascente. Quando chegaram lá, sentou-o no chão e começou a deitar água por cima das feridas. Foi enorme o espanto de Salúquia ao verificar que, à medida que a água caía sobre as chagas, estas saravam de imediato.

– Cristão fomos descobertos! – Exclamou a jovem moura, num tom de voz onde o medo se fazia sentir, olhando em direcção de onde se ouvia o tropear de um cavalo. – Vem aí o governador.

– Não tenhas medo, sossegou o ferido. – A Virgem Mãe vai ajudar-nos.

O cavaleiro aproximou-se da nascente e desmontando, olhou para a rapariga, e perguntou-lhe:

– És tu Salúquia? Tens os mesmos olhos, o mesmo corpo e o mesmo tom de voz que ela, mas a expressão parece-me diferente. E quem é esse homem que não é dos nossos?

– Sim, sou eu, mas vós não sois o mesmo governador mau e prepotente? Este homem é um ferido que encontrei.

– Já não sou o mesmo. Sofro e sabes bem porquê. E esse homem, não é um cristão que caiu nas nossas armadilhas? – O que achas que vou fazer de vós?

– O que achares justo.

O governador ficou admirado com a simplicidade da resposta. Estranhava a rapariga que tinha perdido o tom altivo e desafiador.

De repente, cambaleou e teve que se encostar ao cavalo para não cair. Tinha sido acometido por nova crise e as dores faziam-no sofrer imenso.

– Sofreis senhor? Perguntou-lhe o cavaleiro cristão. – Bebei um pouco desta água.

E fazendo uma concha com as mãos, encheu-a de água, oferecendo-a ao governador. Este, a custo, molhou a boca. Sentindo que lhe suavizava as dores, correu até à nascente e bebeu e bebeu sem parar. Quando se saciou, levantou-se e olhando para Salúquia, exclamou:

– Sinto-me tão bem! Já nada me dói. Parece que estou curado.

Então aproximando-se da rapariga que chorava, pegou-lhe nas mãos e continuou:

– Salúquia, porque choras?

– Perdoai-me senhor! Daria a vida por vós.

O chefe mouro, atraindo a bela rapariga contra o peito, disse-lhe emocionado:

– Meu amor, como foi possível que o ódio quase nos separasse? Amo-te desde o primeiro momento que te vi, mas o orgulho tornou-nos cegos. Alá curou-me e estamos juntos finalmente. Procurou, então, o cristão para lhe agradecer, mas ele tinha desaparecido.

Diz a lenda que o governador e Salúquia se converteram ao cristianismo, quando Almofala foi conquistada pelos cristãos e a nascente não perdeu os seus efeitos milagrosos.

Na realidade quando em 28 de Maio de 1758, o abade de Almofala, Manuel José da Costa e Silva, respondeu ao “Inquérito Paroquial”, mandado elaborar pelo Marquês de Pombal, Primeiro-ministro de D. José, dizia, referindo-se a uma fonte existente na freguesia: “Tem uma fonte, desviada do lugar, para o lado Nascente, no sítio a que se chama ‘Vale de Láxara’. A água desta fonte é ferrada e sai de uma piçarra, sem se levantar da terra”. Já de tempos antigos, os trabalhadores se abstinham de a beber, por lhe fazer fome.

No ano de 1728, o Dr. Bernardo Lopes Pinho, médico da cidade da Guarda, veio observar as águas e declarou: ” “ser manancial de mina de aço e por consequência terem particular virtude para todas as pessoas obstruídas, e com febres lentes, produzidas por semelhantes obstruções. Por esta razão, nos anos de 1749 até ao de 1754 concorreram dela muitas pessoas deste reino e do de Castela, e com efeito curou muitos enfermos de várias queixas“”.