A aldeia andava em alvoroço! Ao fim da tarde, quando as pessoas recolhiam ao lar, depois de um cansativo dia de trabalho, notava-se nelas um olhar receoso, a acompanhar as sombras que os corpos desenhavam no chão. O patinhar nervoso de um macho, no caminho empedrado, fazia-os levantar a cabeça com apreensão.

Quando finalmente o sol desaparecia para lá da linha do horizonte, as pessoas entravam apressadamente em casa, aferrolhavam as portas e mais ninguém se aventurava na rua. Sem sombra de dúvidas, que alguma coisa de extraordinário se passava, para trazer a população aterrada.

Quando a família se reunia à volta da lareira, aconchegando-se do frio e do vento que lá fora se fazia sentir, o silêncio da noite escura era quebrado por um tropel furioso que batia surdamente nas pedras da calçada. Apesar do calor da lenha que crepitava no lume, as pessoas sentiam-se trespassar por um calafrio que as empurrava para a cama.

Não conseguiram dormir! Os olhos inquietos acompanhavam, na escuridão do pequeno quarto, o som da furiosa cavalgada que se ouvia na rua. Por vezes o barulho cessava e o silêncio parecia paralisar os corações assustados. Era assim, noites seguidas, até ao romper da aurora, altura em que tudo sossegava de novo e a vida tornava à normalidade.

No campo, cada um ocupava-se do trabalho, receando falar com o vizinho sobre o ocorrido. A desconfiança juntava-se ao medo. Quem sabe, se não seria o lobisomem que todas as noites aterrorizava a aldeia? Todos os cuidados eram poucos!

A situação arrastava-se há longo tempo, até que um corajoso moço resolveu desvendar o mistério que a todos preocupava. Uma noite, em lugar de entrar em casa, escondeu-se no palheiro, deixando a porta ligeiramente aberta.

A noite estava fria. O vento uivava violentamente, levantando nuvens de poeira à sua passagem. Um ténue luar espreitava temeroso por entre as nuvens. O moço aconchegou o capote, procurando resguardar-se do frio que o ia tolhendo.

Nisto, um furioso galope atroou os ares e uma sombra negra surgiu no meio da calçada, que chispava com o contato violento das patas. A figura horrenda resvalava pelas valetas, escoicinhando para todos os lados, abalando as ombreiras das portas. O rapaz, assustado, mal tinha forças para se mexer, encostando-se à porta do palheiro para se aguentar nas pernas.

Quando a misteriosa personagem se aproximou um pouco mais, o jovem quase em pânico, pôde ver, à luz do luar, que se tratava de uma figura grotesca, metade homem e metade cavalo, ferrado de pés e mãos. Sentiu o sangue gelar-se-lhe nas veias, mas a sorte estava do seu lado. Antes que tivesse feito qualquer gesto que denunciasse a presença, o monstro seguira caminho e desaparecera.

Refeito do forte susto que apanhara, regressou cautelosamente a casa, olhando inquieto em todas as direções. Deitou-se, mas não conseguia dormir. Não lhe saía do pensamento a imagem da horrível figura. Constantemente se interrogava sobre o que deveria fazer ao outro dia: contar o que vira, ou calar-se?

Logo que na rua se começaram a sentir os passos de homens e animais que se dirigiam para a faina do campo, levantou-se e foi a casa de um dos mais velhos homens da aldeia, tido como pessoa sensata e sabedora. Sentado num pequeno banco de três pés, junto à lareira, olhando fixamente para o chão, não se atrevia a olhar para o rosto do homem que ouvia atentamente a narração dos fatos acontecidos na noite anterior, receando a sua reação perante tão mirabolante história.

– Foi grande a tua coragem, meu rapaz! O que presencias-te, poucas pessoas viram e algumas delas não escaparam à fúria do lobisomem – respondeu o velho, num tom de voz calmo e prudente.

O jovem, animado pela seriedade do ancião, levantou o rosto e fixou-o atentamente. Uma bela cabeleira branca, com algumas falhas no meio, emoldurava-lhe a cara, morena, queimada por uma vida de trabalho de sol a sol. Dois olhos escuros, com um brilho vivo e de expressão meiga, sobressaíam do meio da pele enrugada e curtida pelo vento.

– Esse encanto – continuou o ancião – só termina quando alguém conseguir espetar o aguilhão de uma vara no corpo do monstro, fazendo-o sangrar bastante. Mas, para isso, é preciso muita coragem.

– Deixe o caso comigo – respondeu o moço, depois de ter pensado um pouco no assunto. Eu próprio me encarregarei desse trabalho, se aí está a solução para tão terrível problema.

– Já tinha reparado que és corajoso, mas toma cuidado! Se não o picares bem, corres grave perigo de vida!…

Quando anoiteceu e depois de toda a população ter recolhido a casa e aferrolhado as portas, como habitualmente, o rapaz disse aos pais que ia passar a noite no palheiro, para sossegar os animais que andavam um pouco nervosos. Apesar de a noite estar clara, iluminada por uma lua cheia que, de vez em quando era ofuscada por novelos de nuvens, a ventania era forte. Embuçando-se no espesso e escuro capote, o corajoso rapaz saiu do palheiro, levando uma comprida e forte vara, de grande aguilhão. Cautelosamente, procurou as sombras das casas e dirigiu-se para o cruzeiro que ficava à beira do caminho.

Não teve de esperar muito tempo para ouvir o furioso tropel, anunciador da presença da terrível criatura. Dentro das casas, as crianças aconchegavam-se junto dos homens. As mulheres desfiavam as contas do rosário, balbuciando a meia voz uma série infinda de orações. O rapaz, apesar do medo, apertou fortemente a vara.

De repente, a infernal figura surgiu no largo, aproximando-se do local onde o destemido moço estava escondido. Apesar de toda a sua coragem, tremia e lembrava-se das últimas palavras que o velho lhe dissera: ““Toma cuidado, se o não picares bem, corres grave perigo de vida!”.

Um calafrio percorreu-lhe o corpo, mas recobrando o ânimo, preparou a vara, resolvido a levar a missão até ao fim. Esperou! O monstro avançava, passando perto do rapaz que não hesitou em cravar-lhe bem fundo a aguilhada. Um urro tremendo ecoou pela noite silenciosa, aterrorizando ainda mais a população assustada.

Como por encanto, a calma voltou e o vulto diabólico desapareceu, não deixando rasto de si. O valente moço respirou fundo, apesar de tremer como varas verdes e o coração bater descontroladamente. Esperou um pouco para se acalmar e certificar-se que o lobisomem tinha desaparecido, não fosse armar-lhe alguma cilada.

Mais calmo, foi-se deitar, mas não conseguia dormir, pensando em tudo por que tinha passado. Ao outro dia, logo de manhã, foi a casa do ancião e contou-lhe o sucedido.

A partir desse dia, o furioso tropel deixou de se ouvir na povoação. As pessoas, encorajadas, começaram a fazer vida normal, perguntando umas às outras a que se deveriam tais acontecimentos.

Um dia, em conversa com uns amigos, o rapaz contou a sua aventura. Não demorou muito tempo que toda a aldeia soubesse do acontecido. Só que ninguém conseguia descobrir quem fora o infeliz que, por partes do demónio, tinha o triste fado de se transformar em lobisomem e ter que, todas as noites, percorrer sete aldeias, sete fontes e sete pontes.

Pouco tempo depois, um dos mais ricos lavradores da aldeia, que há já algum tempo deixara de ser visto, apareceu a coxear fortemente. A população olhou intrigada para o homem. Se até então, ele sempre fora uma pessoa sã e forte, que desastre lhe teria provocado aquela deformação? Seria ele o lobisomem?

Uma tarde, quando o rapaz tinha regressado do campo e dava ração ao gado, entrou no palheiro o lavrador aleijado. Olhando fixamente o jovem, baixou as calças e mostrando-lhe uma feia e profunda ferida, que lhe afetava a nádega direita, perguntou:

– Que achas que merecia a pessoa que fez isto a um homem, deixando-o aleijado para o resto da vida?

– Sem dúvida, que tal não merece perdão – respondeu o moço, não desconfiando do motivo de tal conversa.

– Tens razão, e justiça será feita – disse o homem.

Metendo a mão ao bolso, tirou um longo e afiado punhal, aproximando-se calmamente do atónito rapaz que, num gesto instintivo recuou uns passos. Porém a parede interrompeu-lhe o movimento. A manjedoura de um lado, e os fardos de palha do outro impediram a fuga. Estava encurralado. Que queria aquele homem? Sempre o conhecera como pessoa justa e bondosa e não se lembrava de lhe ter feito mal algum.

– Não te assustes – continuou o lavrador. Sei que és um rapaz corajoso. Sou o sétimo filho varão, e por isso sofri o condão de me transformar em lobisomem. A tua coragem livrou-me desse horrível fado Antes aleijado, mas limpo de alma e coração. Este punhal era do meu avô. Tem o cabo de ouro e cravejado de pedras preciosas. Por mais valioso que seja não paga o favor que me fizeste. É teu. Merece-lo mais do que ninguém.

Depositado o punhal nas mãos do assombrado rapaz, o lavrador saiu a coxear. Um sorriso de felicidade, que o moço não pôde ver por estar de costas, sobrepôs-se ao esgar de dor que sentia ao dar cada passada.