Um dia, por detrás das vinhas da Coelheira, no meio dos grandes fraguedos que por ali abundam, uma raposa descansava depois de uma forte correria para caçar um coelho. Satisfeita com o almoço, olhava à volta quando viu uma cegonha à procura de alimento para as crias que tinham acabado de nascer.

Aproximando-se, começou a conversar com a ave de arribação, inquirindo a sua origem. A cegonha disse-lhe de onde tinha vindo, contando as maravilhas que admirava na longa viagem até aquela terra.

Os dois animais tornaram-se amigos e, todos os dias, ali se encontravam para dois dedos de conversa. A raposa toda se deliciava com as histórias que a cegonha lhe contava. Muito culta, sem dúvida, e muito viajada, pensava ela, quando ao fim do dia se encaminhava até às arribas, para mais uma caçada.

Certa ocasião, a raposa convidou a cegonha para almoçar com ela. No dia combinado e à hora marcada, a amiga apareceu lá no alto, voando com a habitual elegância. Quando pousou, ficou muito espantada ao aperceber-se que a raposa estava a deitar a comida no prato. Como era educada, nada disse, mas não comeu nada, pois o enorme bico não conseguia apanhar a mais pequena migalha naquele recipiente tão raso.

Ainda por cima, foi tão grande a indelicadeza, da anfitriã que não hesitou em comer o que estava no prato da amiga que se limitava a olhar, sentindo que fora enganada pela manhosa raposa. Não se podia queixar, pois os tordos que pernoitavam no mesmo freixo, bem a tinha avisado para ter cuidado, mas confiara demasiado.

Disfarçando o aborrecimento que tal partida lhe tinha causado, a cegonha despediu-se jurando vingar-se. Alguns dias depois, retribuiu a cortesia, e convidou a que se dizia sua amiga para almoçar. Quando a raposa apareceu no local combinado, saltando de pedra em pedra, muito prazenteira e vaidosa, reparou que a comida estava dentro de uma vasilha alta e de gargalo estreito.

Enquanto a cegonha, com o enorme e delgado bico, se deliciava com o manjar, a raposa olhava esfomeada para a amiga. Terminada a refeição, e vendo o ar desconsolado da comadre, a cegonha convidou-a a subir numa das asas para irem comer umas migas, um pouco mais adiante. A raposa, com o apetite que tinha, não se fez rogada, subiu de imediato numa das asas e levantaram voo.

Depois de umas largas voltas, sobrevoaram a região das arribas. A raposa, ao olhar lá para baixo e vendo os altos penhascos que aprisionavam o rio Águeda que, a custo, rompia o caminho para a foz, por entre as gargantas graníticas que pareciam querer abafá-lo, sentiu medo e agarrou-se com mais força à asa da cegonha. Esta como que adivinhando o receio da comadre, mudou de rumo.

Inquirida pela raposa do tempo que ainda faltava para comerem as migas, a cegonha respondeu-lhe que faltava pouco. Entretanto, dizendo-se cansada daquela asa, pediu à comadre que se mudasse para a outra.

Quando a raposa, na maior das cautelas e prodígios de equilíbrio, mudava de lugar a cegonha inclinou-se, fazendo com que a companheira da viagem se despenhasse das alturas. Muito aflita, a raposa olhou para o chão, que a grande velocidade se tornava cada vez mais perto, e vendo que caía a grande velocidade se tornava cada vez mais perto, e vendo que caía em direcção a um enorme ““poio“”, gritou-lhe num alto e aflitivo brado:

– Foge ““poio“”, que te racho!…

E na verdade, quem passar pela coelheira, pode ver o alto penedo rachado de alto a baixo!