Em épocas muito recuadas, numa serra, perto do local onde hoje se encontra a freguesia de Penha de Águia, vivia um homem chamado Marcos. Há já algum tempo que andava intrigado com uns vultos que, durante a noite, passavam por determinado lugar, perto do sítio onde pernoitava.

Numa noite de lua cheia, escondeu-se atrás duma grande giesta e esperou. Algum tempo depois, lá passaram eles montados em mulas carregadas com pesados fardos. Descobriu, então, que eram contrabandistas.

Durante o dia pensou na melhor maneira de se apoderar do carregamento que traziam. Ao cair da tarde, atou uns chocalhos a um fio, atravessando-o no caminho que os contrabandistas tinham de seguir. Quando chegaram ao local, as mulas tropeçaram e o barulho dos chocalhos espantou os animais, deixando os donos caídos no chão.

Marcos, que se encontrava mais à frente, segurou nas mulas e roubou-lhes a carga. Repetiu a manobra várias vezes, mudando o sítio para desnortear os contrabandistas. O tempo passou, e estes resolveram trocar de rumo, afastando-se daquele lugar misterioso, onde o perigo espreitava constantemente.

Uma ocasião, a mulher de Marcos, que ia todos os dias à serra levar-lhe de comer, ficou preocupada com o ar abatido do marido. Deitando-lhe a cabeça no regaço, disse-lhe:

– Marcos, acho que é altura de te arrependeres de todo o mal que fizeste.

O infeliz escutou atentamente as palavras da esposa, olhou para o céu com ar de arrependimento e morreu. A mulher cobriu o corpo com folhas de carvalho, ali permanecendo sete anos. Durante esse período de tempo, não choveu na Penha de Águia. De vez em quando, o povo ouvia assustada uma voz que bradava:

Quem quer água na terra, vá buscar Marcos à serra!

Tantas vezes ouviu este apelo, que a população intrigada resolveu ir verificar o que se passava. Ainda não tinha andado metade do caminho quando o milagre se deu. Uma forte chuvada regou os campos mirrados pela sede.

Prosseguindo o caminho, encontraram o corpo de Marcos, que apesar de ter falecido há sete anos, se mantinha incorrupto. Levando-o numa padiola, sepultaram-no na igreja de Penha de Águia.